terça-feira, 18 de maio de 2010

Cúmédia

Essa semana fui advertido, por ferir o código de conduta da minha empresa, em outras palavras, fui advertido por escrito por arrotar, hahahaha, eu achei que era piada, mas não era, segue minha retórica ao fato:

Caro,

Existem alguns esclarecimentos sobre o sábado, que se eu não expuser, não vou me sentir bem comigo mesmo, e isso pode atrapalhar meu convivio com os demais, só o faço porque você abriu esse espaço e o tenho como alguém que admiro profissionalmente e principalmente como pessoa.

O fato ocorrido no dia 15/5, figura que um dos funcionários eructou de forma alta, involuntariamente de forma a até se sentir envergonhado. Vale lembrar que “arrotar” (eructação) é um ato fisiológico, e dizer que é involuntário é redundante.

Apesar de este ato ser involuntário, outro funcionário de nível hierárquico maior, o intimidou a não "arrotar mais" na frente de todos, ou seja, parar de fazer algo que lhe foi involuntário. Porém convém dizer que, tal ato não é esteticamente agradável para ambas às partes, tanto protagonista quanto espectadores, e convém também dizer, que o julgamento que foi feito deste ato foi um julgamento de valor, e não de realidade (1), visto que em tal julgamento são levados em conta parâmetros de formação cultural, e estes se diferenciam em cada família, e em cada grupo social ou étnico. Se parâmetros assim forem levados em consideração tal ação figura em preconceito.

O protagonista comentou o fato com o único funcionário que se postava ao seu lado, de forma à quebrar o clima que pautava no ambiente, afim de este ficar mais agradável para ele. Porém enquanto comentava com seu colega que foi involuntário e nojento o que tinha feito, involuntariamente eructou novamente de forma mais baixa e postando a mão sobre a boca. O funcionário de nível hierárquico maior que já estava fitando-o ameaçou contar o ocorrido ao seu superior, achando ridícula e infantil a ameaça, concordou com tal afirmação, ouviu também que sua postura era de "falta de profissionalismo", o funcionário de nível hierárquico menor, não falou mais nada, e voltou a fazer o que lhe foi designado. E o dia acabou assim.

No dia de trabalho seguinte, funcionário protagonista do ocorrido, foi chamado para explicar o que foi ocorrido no dia 15/5 à sua supervisão, explicou o que ocorreu e foi advertido de forma escrita por ter arrotado dentro do ambiente de trabalho, este se sentiu constrangido, por ter que compartilhar o que ocorreu, com pessoas que não participam do seu convívio dentro do ambiente de trabalho e por se sentir repreendido por fazer algo que é fisiológico e involuntário. Perguntando sobre do que valia sua posição sobre os fatos, se viu com uma declaração que independente do exposto por este, não mudaria o fato de receber uma advertência escrita. Então porque teve que expor tudo novamente e passar por este outro constrangimento?

Não quero me passar por vítima, entendo seu ponto de vista Caro. Eu posso não ter uma bagagem de mais de cinco anos de empresa e mais de quarenta de vida, talvez não entenda essa repreensão por não ter essa bagagem, e por mais que eu pense me incomoda o fato de eu não concordar com a advertência, se fosse certo eu concordaria, tenho certeza, não consigo pensar de outra forma, a única coisa lógica que me veem a cabeça é que um ser humano é melhor que o outro, eu sei que existe isso, empiricamente existe, mas eu não concordo, eu não posso concordar.

As normas existem para manter o convívio entre as pessoas agradável, ou possível dentro de um ambiente estressante, nossa empresa possui um código de conduta bem generalista sobre isso:

“Não aceitamos constrangimento, intimidação ou abuso, seja sexual ou de outra natureza, e atos de humilhação que levem a um ambiente hostil e ofensivo.”

Quem foi constrangido, intimidado, humilhado, fui eu. Quem recebeu o abuso de natureza hierárquica fui eu. E quem levou uma advertência por má conduta fui eu. Não sei se faz sentido, mas acho isso, pelo menos, contraditório. Na próxima vez caso eu peide, espero não ser demitido.


(1)Durkheim, Émile (1911)

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